
Nos últimos dias, ganhou força entre setores da esquerda a narrativa de que o desempenho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno das eleições estaria diretamente relacionado ao elevado número de abstenções registrado no último domingo (4).
A partir dessa interpretação, a aposta agora parece ser na mobilização dos eleitores que não compareceram às urnas, numa tentativa de ampliar a participação no segundo turno. O problema é que existe uma incógnita impossível de ser ignorada: não há como afirmar que o eleitor ausente, caso tivesse votado, escolheria necessariamente Lula.
Os dados de comparecimento e abstenção, portanto, abrem espaço para uma análise mais ampla. O comportamento do eleitorado não foi uniforme entre as diferentes regiões do país, e qualquer conclusão sobre o impacto político das ausências precisa levar em conta as características eleitorais de cada área.
No Nordeste, região historicamente marcada por forte desempenho eleitoral de Lula e da esquerda, a dinâmica da abstenção apresentou queda, enquanto em estados das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, onde o eleitorado tem apresentado maior equilíbrio ou vantagem para candidaturas de direita em diferentes pleitos recentes, a ausência às urnas foi significativa.
É justamente nesse ponto que surge a principal questão do debate: o retorno desses eleitores às urnas necessariamente beneficiaria Lula?
A resposta, neste momento, não pode ser dada apenas pelos números da abstenção. Os eleitores que não compareceram ao primeiro turno não formam um bloco político homogêneo e podem, no segundo turno, votar em qualquer candidato, optar pelo voto branco ou nulo ou, novamente, não comparecer.
Assim, transformar a abstenção em uma espécie de reserva automática de votos para um dos candidatos pode ser uma aposta política, mas não uma conclusão determinada pelos dados.
Enquanto isso, o discurso sobre a importância de levar os eleitores ausentes às urnas já ocupa espaço nas ruas, no rádio, na televisão e nas redes sociais.
A estratégia está lançada. Agora, resta acompanhar as urnas para saber se a mobilização dos ausentes produzirá o efeito esperado ou se o comportamento desse eleitorado contará uma história diferente no segundo turno.